A crítica e a baleia


Cristhiano Aguiar

Crítica literária e pesca

Só acredito em um crítico literário que seja, em certa medida, um caçador de baleias. O modelo que tomo é o mais perigoso possível: Ahab, o obstinado capitão do navio Pequod, que cruza os oceanos à caça da baleia branca Moby Dick. Tudo indica que o encontro final com o peixe enrugado será nefasto; um dos seus imediatos, Starbuck, avisa a Ahab: “Não é tarde demais (…) para desistir. Vê! Moby Dick não te procura. És tu, na tua loucura, és tu, que o procuras!”. Os maus pressentimentos se cumprem. Na luta final entre Moby Dick e o navio, será a baleia branca a vencedora.

Na época em que se passa a história narrada no romance de Melville, o negócio da pesca de baleias era extremamente lucrativo, porém cheio de perigos. O dinheiro movia aqueles homens, claro, mas não somente isso. Havia alguma coisa no mar… Uma inquietação e uma sensação de infinitude. Caçar baleias não é uma ciência exata: seu comportamento é imprevisível e elas se movem em um habitat movediço, provisório, opaco. E não há nenhuma baleia igual a outra, porque cada uma possui nome, rosto e cicatrizes. Da mesma forma que Ahab nunca conseguirá vencer Moby Dick, o crítico nunca chegará a uma verdade definitiva sobre o seu objeto de estudo. Moby Dick está condenada a escapar dos arpões afiados, contudo Ahab persiste. O crítico também. O mar é uma linguagem.

Se aproximo Ahab (um fanático, mistura de George Bush e Bin Laden) da figura do crítico, não é para defender a atividade crítica como uma ação fechada e fundamentalista. O que defendo é o fato de que o crítico precisa possuir um compromisso apaixonado pelo objeto que estuda. Os críticos são, ou deveriam ser, o espelho invertido de Ahab: o que move o capitão é aquilo que ele, contraditoriamente, mais odeia; o que move o crítico, por outro lado, é o entusiasmo. Compartilhamos a mesma chama com o capitão do Pequod. Sarça ardente, ela pode criar novos sentidos; sarça ardente, ela pode obliterar vidas. No fim das contas, é disto que se trata, transmitir a paixão pela literatura.

(continua)

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5 Comentários

Filed under Cristhiano Aguiar, Revista #1

5 respostas a A crítica e a baleia

  1. Olá, tive grande prazer em rever os escritos do poeta e amigo pessoal Jomard Muniz de Britto neste site. Outrossim, como me interesso por crítica literária, acompanharei com muita curiosidade as produções aqui expostas. Parabéns pelo projeto. Saludos. Maria José Limeira.

  2. Cristhiano, como te falei certa vez, o trabalho de crítico é extremamente complicado, sobretudo por nem sempre interpretar claramente o que o autor quis falar. Porém, como você me disse, o que o autor quis dizer é o que menos importa e sim o que o leitor conseguiu absorver. Não tenho uma opinião muito bem formada sobre o trabalho de um crítico, mas respeito bastante. Para concluir fico com suas palavras: “o crítico nunca chegará a uma verdade definitiva sobre o seu objeto de estudo”.

  3. Texto Dois-em-Um. Por um lado diz o que entende por crítica, e ao mesmo tempo faz uma interpretação de Moby Dick como metáfora. ; )

  4. Artur Lins

    Fantástico!

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