Encanto, teatro e crítica


Ronaldo Correia de Brito e Marcondes Lima cativam a plateia do Hermilo na quarta edição do projeto Laboratório

Uma plateia atenta durante mais de duas horas acompanhou as falas de Marcondes Lima e Ronaldo Correia de Brito, além da performance deste último na edição de julho do projeto Laboratório, que é patrocinado pelo SINPRO-PE. Mediados por um dos curadores do projeto, Bruno Piffardini, os dois convidados discorreram sobre o papel do texto em vários momentos da história do teatro, a recuperação de seu caráter dionisíaco ritual no trabalho de Zé Celso e suas respectivas experiências em transcriações/adaptações de textos literários para o teatro. Opiniões polêmicas que em diversos momentos arrancaram aplausos da plateia.

Marcondes Lima (E) e Bruno Piffardini (D)

Ronaldo Correia de Brito foi bem incisivo no que diz respeito ao trabalho de escritor quando questionado por um participante da plateia sobre os prazos para entrega de livros. “Escrever é um oficio, assim como o carpinteiro ou o padeiro. Eu vivo os olhos ardendo e com dor nas costas de escrever. Não há glamour!”, exclamou. Já Marcondes Lima criticou a falta de ‘alfabetização estética’ por parte de certos segmentos da crítica de teatro, que muitas vezes se limitam a comentários factuais das exibições. “Do mesmo jeito que alguns diretores não gostam de determinados atores, alguns jornalistas simplesmente não gostam de arte!”, sentenciou Lima.

FICÇÃO - A quinta edição do projeto Laboratório, que tem previsão para seis edições nesta primeira temporada, contará com a participação do professor e escritor Rinaldo de Fernandes (UFPB) e Brenda Carlos (UFCG), que discutirão a ficção contemporânea brasileira. Como sempre, as discussões do Laboratório continuam aqui pelo site e pelo Twitter (@olaboratorio). Os organizadores já anunciam que está sendo preparada a segunda temporada do projeto, que continuará sendo realizada no Teatro Hermilo Borba Filho.

6 Comentários

Filed under Imprensa

6 respostas a Encanto, teatro e crítica

  1. Que “bom” que a discussão ainda está por aqui! Embora estou atrazado dez dias. Mas se é a peça “boa” ou “ruim” me pareceu ter algo de parecido com conceitos como de “belo” e “feio”. O feio ou ruim pode ser obra de arte mire-se na comédia desde interpretações aristótelicas. Há ainda o feio entendido moralmente. Contudo me pareceu, Eliene (LN, achei bem criativo), que você está compreendendo “bom” e “ruim” por um viés psicologico. Sobre a sensação que a obra causa no espectador…isto é inteiramente de cada um, não afeta o conceito de arte e sim da recepção do espectador. Alguem pode achar Shakespeare montado por um diretor x, com atores y, figurinos z, algo ruim e outros bom, mas não vai ser por isso que ele deixa de ser arte (belo). Interessante isso, né? Quando se falou em ruim, naquela ocasião, meu endenter foi que ir-ao-teatro, independente da peça ser ruim para uns e bom para outros, era um bom programa sempre.

  2. Cristhiano Aguiar

    Oi pessoal: se entendi, acho que a colocação de Eliene é a seguinte – uma peça de teatro de má qualidade pode ser chamada de arte? Devemos chamar “arte” apenas aquilo que consideramos “bom”? Não há uma resposta pronta para isso, mas considero o seguinte: os conceitos de “bom” ou “mal” não fazem parte do conceito que devemos elaborar sobre o quê é ou não arte. O debate sobre os valores da obra, sobre suas qualidades e defeitos é fundamental e precisa ser feito, contudo não no contexto de conceituação do que é ou não arte. Abraços a todos!

  3. LN

    Interessantíssima a discussão… Literatura, teatro e arte… Adaptações…O que me deixou um pouco confusa foi a sugestão de que ‘teatro’ é ‘sempre’ ‘arte’, por si só. Achei muito parnasiano: arte pela arte?!? Será? Então, tudo o que se vê no teatro é arte – sempre boa? mesmo quando ruim vale a pena? não há ruim? Não sei, ajudem-me.

    • Acredito, Eliene, que o que foi defendida foi a autonomia do teatro enquanto gênero, desligando-se da literatura. O texto dramático como um gênero literário não se realiza por si só: existe apenas enquanto encenado e implica códigos que vão além do linguístico. Creio que foi isso Marcondes e Ronaldo defenderam. Abaixo há um comentário do Ítalo sobre a autonomia do texto que vale a pena aprofundar também. Não vi na discussão a questão da valoração do teatro como bom per se. Viu isso?

  4. Excelente complementação, Ítalo.

  5. Ítalo Durdson

    …é que o teatro deixou de ser instrumento do texto literário, ainda que mantivesse sua especificidade. O teatro tornou-se o próprio texto. A própria linguagem sob a gênese dramática. Há reciprocidade entre as duas artes (Literatura e teatro) e seus respectivos ‘autonomismos’ não conhecem mais fronteiras.

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