Crítica Literária em Revista


LAB_editorial pag01_ilustracao de Ayode FrancaRevista L.A.B., sobre crítica literária e literatura contemporânea com lançamento no Hermilo Borba Filho

Discutir crítica literária e literatura contemporânea de forma acessível para o grande público, sem descuidar da qualidade e da profundidade dos debates: essa era a proposta do projeto Laboratório: literatura e crítica, que aconteceu no Teatro Hermilo Borba Filho. Além dos encontros presenciais no teatro, abertos ao público, o projeto envolvia um blog e se transformou num talk-show exibido na TV Pernambuco.

Na próxima quinta-feira (2), a partir das 19h, será lançado o último produto cultural vinculado ao Laboratório: a Revista L.A.B., que se propõe a dar continuidade, desta vez através de uma publicação impressa, aos debates realizados entre 2010 e 2011. São colaboradores desta edição professores universitários, críticos literários e escritores de diferentes regiões do país.

Além de textos reflexivos escritos pelos curadores do projeto, a revista traz uma entrevista com a professora Marisa Lajolo sobre crítica e literatura; reflexões dos professores Saulo Neiva, Ana Lúcia Trevisan e do escritor e professor Rinaldo de Fernandes sobre poesia épica, memória e a literatura fantástica no contexto da literatura contemporânea; poemas de Jommard Muniz de Brito e Biagio Pecorelli; contos de Júlia Moreira e Lupeu Lacerda, bem como um caderno de resenhas com textos sobre Roberto Bolaño, Paulo Scott, Everardo Norões, entre outros.

Editada por Cristhiano Aguiar e Wellington de Melo, a Revista L.A.B. conta com uma diagramação experimental a cargo da Editora Paés, que inclui quadrinhos de Ayodê França. A revista foi viabilizada através do SIC municipal da cidade do Recife, lei 16.915/96, com apoio cultural do Hospital Santa Joana. Distribuição será gratuita para as 100 primeiras pessoas a chegarem ao evento. O resto da tiragem será destinado a bibliotecas, espaços de leitura e universidades. Além disso, a revista será disponibilizada em pdf pelo blog do projeto (www.olaboratorio.wordpress.com).

O lançamento contará com um bate-papo informal com os curadores do Laboratório: Cristhiano Aguiar, Cristiano Ramos, Johnny Martins, Jommard Muniz de Brito e Wellington de Melo.

HISTÓRIA – Em 2010, aconteceu no Recife a primeira temporada do projeto Laboratório, um talk-show ao vivo sobre crítica literária e literatura contemporânea. Os encontros foram transformados em programas exibidos pela TV Universitária e procuravam aproximar o público interessado em literatura de questões muitas vezes apenas discutidas no contexto dos estudos universitários. Com edições que lotaram o teatro Hermilo Borba Filho, alguns dos programas trataram de temas instigantes como “Crítica: para quê?”, ou quais seriam as novas vertentes do teatro contemporâneo em Pernambuco e no Brasil, por exemplo. Idealizado pelo escritor Wellington de Melo, o Laboratório teve como curadores os escritores Bruno Piffardini, Cristhiano Aguiar, Cristiano Ramos, Johnny Martins e Jommard Muniz de Brito. 

Serviço:

Lançamento Revista L.A.B. e bate-papo com os curadores do projeto Laboratório.
Local e hora: Teatro Hermilo Borba Filho, rua do Apolo, 121, a partir das 19h.
Distribuição da revista será gratuita para as 100 primeiras pessoas a chegarem ao evento.
Facebook: https://www.facebook.com/events/1413217512339440/
Entrada franca

Créditos das ilustrações: Ayodê França

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Lançamento da Revista L.A.B.


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by | 16/06/2015 · 19:25

Emicida é laboratorial


Emicida, acanhado com a camisa do Laboratório.

 

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Planeta dos macacos: a origem e X-men: first class


Por Cristhiano Aguiar

Esta é uma proposta de leitura de dois recentes filmes de ficção científica: Planeta dos Macacos e X-men. Não farei uma análise que leve em conta a linguagem cinematográfica em si; não sou crítico de cinema e me falta competência para tanto. A leitura proposta é quase “temática”: pensar a respeito de questões políticas que podem ser levantadas pelos dois filmes, enfocando os protagonistas de cada narrativa.

Planeta dos macacos

A referência primeira da fábula moral deste novo Planeta dos Macacos é o romance Frankenstein, de Mary Shelley: as sempre imprevisíveis consequências do engenho científico. Segundo Joan Slonczewski e Michael Levy, em “Science fiction and the life sciences”, o romance de Shelley é o texto inaugurador das relações cada vez mais próximas entre Ficção Científica (FC) e ciências biológicas, nas quais “the quest for outer space has given way to the quest for the genome”. O século XIX não nos aparece por acaso, se pensarmos que é neste período que se aperfeiçoa a gestão biopolítica praticada pelos Estados modernos até os dias de hoje. Clonagem, engenharia genética, eugenia, prolongamento da juventude, transmissão da consciência humana para outros corpos, epidemias de vírus devastadores, próteses, doenças produzidas por experimentos científicos, simbiose entre homens e máquinas: esta é apenas uma pequena amostra de pautas reais pesquisadas pelas ciências biológicas e sociais, pautas que também alimentam inúmeros mundos paralelos construídos pela FC nas suas mais diversas linguagens narrativas: literatura, cinema, videogames, histórias em quadrinhos e RPGs.

Embora o personagem principal, César, seja um macaco, este ainda é um filme de “ator”, cujo protagonista foi construído digitalmente através da captura de movimentos do ator Andy Serkins, que já tinha interpretado, mediante tecnologias semelhantes, outro macaco antes – no filme King Kong – e também o melhor personagem criado por J.R.R. Tolkien, o conturbado Gollum. Planeta dos Macacos possui dois trunfos. Um deles é este personagem principal, cujas escolhas quero comentar logo mais. O segundo trunfo, que me interessa menos, são os efeitos especiais que deram vida aos personagens primatas em detrimento da nossa própria espécie. Nada novo: uma das fontes de renda do cinema sempre foi essa possibilidade de ativar o imaginário do público através do desenvolvimento de novas tecnologias audiovisuais. Imagino que, nos primórdios desta arte, “roteiro” ou “proposta poética” ficavam, em diversos casos, em segundo plano diante da maravilha que era ver uma locomotiva a vapor correr na nossa direção!

Para baixar o artigo completo em PDF, clique aqui.

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Estreia do Laboratório 2.0 na TVPE


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Laboratório: última edição de 2011


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O terreno polêmico da música


Entrevista com Conrado Falbo

Por Cristhiano Aguiar

Cristhiano Aguiar – Volta e meia vemos pessoas reclamando da qualidade musical que as rádios e a TV veiculam. Gêneros muito populares, como axé, sertanejo ou pagode são muitas vezes classificados de forma pejorativa. No entanto, já foi assim com o samba, o rock and roll e atualmente o funk parece ser um gênero completamente cult. O que é música “ruim”?

Conrado Falbo – Não é apenas adjetivando que se atribui valor (ou desvalor) a alguma coisa – Roland Barthes já escreveu que o adjetivo é a categoria gramatical mais pobre que podemos utilizar para falar sobre música. A própria atividade de definir música já nos coloca diante de uma valoração radical: o que merece ser chamado de música? A categoria “música ruim” seria um subproduto das respostas possíveis a esta pergunta, já que algumas expressões são consideradas “menores” ou “ruins” apesar de serem reconhecidas como música. É óbvio dizer que as visões possíveis sobre estas questões variam de acordo com um conjunto complexo e mutante de fatores, mas acho importante frisar que, mesmo no interior de grupos supostamente homogêneos coexistem atitudes variadas e até opostas sobre o que seja “música ruim” ou sobre a própria pertinência desta categoria. A música costuma ser um terreno polêmico porque permeia diversos aspectos da vida cotidiana: há quem escute música para dançar, há quem escute música para relaxar, há quem escute música com atenção, há quem escute música para se distrair. Se eu digo que o brasileiro valoriza mais a ginga (ou “dançabilidade”) que qualquer outro aspecto da música, além de estar sendo incrivelmente pretensioso, estarei ignorando o grande sucesso de artistas como Adriana Calcanhotto, para citar um exemplo entre inúmeros que podemos ouvir nas rádios hoje. E se a questão é sucesso de público, acho pretensiosa e despeitada a atitude de desmerecer o gosto popular e ignorar os fatores que levam certos gêneros musicais a alcançar um sucesso que muitas expressões da dita “música séria” nunca conheceram. Aliás, a questão do “popular” é complexa no Brasil: ainda utilizamos a expressão música popular para fazer referência a fenômenos culturais totalmente distintos, sem falar em todas as tensões sociais implícitas neste tipo de adjetivação/valoração.

CA –  Qual a importância da canção popular para a poesia brasileira? Nossos músicos da MPB seriam nossos poetas mais importantes?

CF – Não sei se os compositores da MPB são nossos poetas mais importantes, mas eles certamente têm uma inserção social que costuma ultrapassar em muito o alcance da poesia que se encontra nos livros. A relação entre canção e poesia remonta à natureza sonora da própria linguagem: em muitos momentos a aproximação foi tanta que as palavras canção e poema foram utilizadas como sinônimos (ainda são em algumas ocasiões). Além das questões conceituais, também é fácil perceber as tensões valorativas que permeiam a relação entre poesia e música. Muitas vezes se faz referência a certos compositores de canções como poetas de modo a valorizar seu trabalho. Nesta atitude está embutido o preconceito de que o ofício do poeta é de alguma forma mais nobre que o do compositor. Esta relação de valor é possível porque contemporaneamente tendemos a pensar na canção como pertencendo ao domínio da música, e no poema como pertencendo ao domínio da literatura: a separação é conceitualmente problemática, entre outros aspectos, porque tende a esconder os inúmeros pontos de contato que existem entre as noções contemporâneas de canção e poema. Aliás, muitos poetas negam que a poesia realmente pertença ao campo da literatura, refutação que parece estar ligada à crítica de um conceito de literatura mais restrito e distante das raízes sonoras da linguagem por estar baseado na atividade de leitura (silenciosa e solitária) de livros – atividade historicamente recente e que exclui uma parcela significativa da arte verbal já produzida pela humanidade. No caso do Brasil, a força da cultura oral tende a influenciar todas as outras manifestações da palavra, inclusive a escrita. Isso faz com que as relações entre poetas e compositores de canções sejam fluidas a ponto de ser possível questionar a pertinência da divisão canção x poema e as valorações dela decorrentes.

CA –   Gostaria que você falasse um pouco da pesquisa que desenvolveu no âmbito do seu mestrado.

Estudei a obra de Itamar Assumpção, compositor e músico paulista falecido em 2003 e geralmente associado ao grupo de artistas que nos anos 1980 ficou conhecido como Vanguarda Paulista ou Lira Paulistana. A obra de Itamar é extremamente complexa e ainda pouco estudada do ponto de vista formal. Nos primeiros discos (altamente inovadores até para os padrões atuais) Itamar costumava compor sobrepondo vários ritmos e pensando a canção de uma forma”cênica”, com diferentes discursos, personagens e narrativas combinadas. Isso se refletia nos shows, verdadeiras performances que tornaram célebre seu estilo sofisticado de trabalhar no palco com os músicos e vocalistas. No primeiro disco, o público foi apresentado ao personagem Beleléu, criminoso que vivia acompanhado de seu “perigosíssimo bando”, que também era uma banda chamada Isca de Polícia. A questão da marginalidade social era utilizada por Itamar também como metáfora para sua marginalidade no meio da música popular brasileira. Ele sempre foi um artista intransigente, que durante toda a vida se recusou a comprometer sua visão em nome do mercado ou da aceitação do público. Ao longo da carreira, o estilo performático de Itamar foi se condensando em uma maneira de compor formalmente mais singela, mas não menos crítica. Para dar conta desta obra tão complexa, tive que articular várias disciplinas acadêmicas (teatro, performance, música etc.) e, obviamente, nem cheguei perto de esgotar as possibilidades de interpretação que a obra de Itamar oferece. No caminho da pesquisa, descobri que esta obra vem sendo cada vez mais estudada no âmbito acadêmico e que o lastro teórico para este tipo de estudo vem se tornando cada vez mais consistente. O trabalho de Itamar também me fez começar a questionar as divisões disciplinares que pautam a pesquisa acadêmica e me apontou rumos interessantes nesta seara.

CA –   Como você percebe a crítica de música, tanto no jornalismo cultural, quanto nas universidades?

CF – Confesso que não tenho o hábito de ler crítica regularmente. Acredito que faz tempo que a crítica já não tem mais o papel de chancelar o gosto de quem quer que seja. A crítica também já não é tão eficiente na tarefa de identificar e divulgar novos talentos em tempos de contato direto entre artistas e público. A internet fez com que os artistas pudessem disponibilizar suas obras ao público antes mesmo de contarem com um esquema tradicional de produção de discos. Aliás, já está claro que esse sistema tradicional de produção-gravação-distribuição de músicas não existe mais. Acho grave que os críticos nem sempre procurem se adaptar a esta (nem tão) nova realidade. Percebo em vez disso a repetição de velhos chavões, e, citando Itamar Assumpção, “chavão abre porta grande”. A universidade tem cumprido um papel importante ao investigar as novas maneiras de produzir, ouvir e fazer circular a música, mas este conhecimento continua restrito a um número relativamente pequeno de pessoas. A pesquisa acadêmica no Brasil e no mundo está organizada de maneira a privilegiar a quantidade de conhecimento produzido (medida pela quantidade de publicações), muitas vezes esquecendo de promover a circulação deste conhecimento na sociedade. O descompasso entre o que se pesquisa sobre música na universidade e o que se escreve nos jornais, revistas e sites especializados é gritante.

Conrado Falbo é músico, professor e pesquisador. Integra o Coletivo Lugar Comum de criação artística e realiza pesquisa de doutorado sobre voz e performance na literatura.

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